Entrevista: Mônica Otero

23/07/2014 | Por Silvia Pires & Mônica Otero | www.monicaotero.com.br
Estamos sempre em busca de mulheres que nos contem histórias reais para inspirar outras mulheres. E essa é uma dessas histórias - quem ainda não conhece, temos prazer em apresenta-la. Em 2007, aos 51 anos de idade, Mônica Otero foi a primeira mulher sul-americana a completar a ultramaratona de Badwater, conhecida como a corrida mais dura da Terra. São 217km que começam no Vale da Morte, na Califórnia, a 90 metros abaixo do nível do mar e terminam no Monte Whitney, a mais de 2.700 metros de altitude. Isso já seria um grande feito, mas sua história de vida torna tudo ainda mais inspirador. Superou um câncer de intestino, quando teve sérias complicações após a cirurgia, fez muita quimioterapia, convive com uma diabetes tipo 2, se separou depois de 28 anos de casamento... muitas histórias. Nessa entrevista e depoimento, ela nos conta um pouco mais.

Mônica : "SOMENTE PARA VOCÊS ENTENDEREM COMO COMECEI..."

Mônica : Na realidade a corrida, mais precisamente a ultramaratona, aconteceu por acaso na minha vida. Em 2001 eu fiz um trecho do Caminho de Santiago na Espanha. Em 2002 e também 2003 fiz o Caminho do Sol, aqui no Brasil. Eram 100 pessoas fazendo esta caminhada e dentre elas estava um brasileiro que morava nos Estados Unidos. No final de 2005 recebi um e-mail deste brasileiro, Mario Lacerda, dizendo que estava organizando uma ultramaratona aqui no Brasil. Era uma prova teste e se eu queria participar. Eu nem sabia direito o que era uma ultramaratona... mas resolvi aceitar. Esse teste seria num trecho do Caminho da Fé, outra peregrinação, nos moldes do Caminho de Santiago aqui no Brasil. Eram 217 km que o atleta teria que percorrer em até 60 horas ininterruptas. Achei aquilo uma maluquice... mas gosto de desafio. Foram poucas as pessoas convidadas. Convidei minha sobrinha Fernanda e o tio dela, Edson, para me acompanhar. Eles iam de carro levando água, comida, roupas e eu ia correndo. Aliás, este "correndo" é um capítulo à parte. Eu não gosto de dizer que corro. Prefiro falar que ando e troto, ando e troto o tempo inteiro. Eu não completei esta prova, mas fiz 160 km em 36 horas e parei. Mas para quem nunca tinha participado de uma prova era um bom começo. E deu-se o nome de BRAZIL 135 ULTRAMARATHON a esta prova (135 porque são 135 milhas que equivalem a 217 km)

Esta foi a primeira e daí realmente não parei. Continuei com as caminhadas de longa distância. Fiz o Caminho da Luz, o Caminho da Fé, Caminho das Missões, Caminho dos Anjos, Caminho de Frei Galvão, Caminho da Paz e Passos de Anchieta e também comecei a acompanhar atletas, trabalhar em equipe de apoio, o mesmo trabalho que a minha sobrinha Fernanda e seu tio fizeram comigo.

No final de 2006, fui convidada pelo Mario Lacerda a ajudá-lo a organizar esta mesma prova aqui no Brasil, agora como prova oficial em 2007, pois ele ainda estava morando lá nos Estados Unidos. E nessa história toda, mesmo trabalhando na organização, o Mario pediu para que eu corresse a prova, pois eram poucos atletas que tinham se inscrito e todos homens e nenhuma mulher. E deu-se a largada, e desta vez eu fui sozinha, sem equipe de apoio, somente com uma mochila nas costas. Claro, que eu não concluí a prova dentro das 60 horas!!! Eu nem havia treinado para participar da competição. Eu passei do horário regulamentar... concluí em pouco mais de 67 horas os 217 km. Eu não fui finisher oficialmente.

E foi assim que eu comecei... !!!!”

+Amigas : O que você teria a dizer para as mulheres que também enfrentam ou enfrentaram um câncer e gostariam de se iniciar num esporte?

Mônica : Para essas mulheres eu diria para escolher o esporte que mais lhe agrade e que tenha afinidade. Porque se ela não gostar daquilo vai fazer, vai ser difícil seguir em frente. Sempre haverá uma desculpa. Ela tem que encontrar prazer naquilo que irá fazer e sempre procurar um profissional para lhe orientar e fazer todos os exames que se fizerem necessários.

+Amigas : Você acha que as pessoas que passam por dificuldades tão extremas têm mais facilidade de enxergar meios para mudar de atitude diante da vida, de reinventar a própria existência?

Mônica : O correto seria pensar assim, que depois de passar por tantas situações difíceis deveria enxergar a vida de outra forma, rever os valores, mas nem sempre isto acontece. Depois que a tempestade, a nuvem negra vai embora, muitas pessoas vivem do passado, das tragédias, ficam amargas e muito tristes. Aí é onde entra a depressão.

+Amigas : A sua maior luta foi contra a doença ou foi decidir dar um novo rumo à sua vida, fazer aquilo que te dá prazer?

Mônica : A doença surgiu e eu não vi outra opção a não ser lutar contra ela. Foram 5 anos de incertezas e de medo e com todos os efeitos da quimioterapia, mas eu queria viver e ver os meus filhos crescerem.
Agora dar um novo rumo a minha vida era uma decisão que só eu podia tomar. Dependia só de mim, de uma atitude e já que ganhei uma segunda chance na vida, não podia deixá-la ir embora. Com certeza, tomar a atitude foi a parte mais difícil.

+Amigas : A que você atribui essa força que te impulsionou para um caminho tão bom? Foi a determinação?

Mônica : A determinação foi o fator preponderante. Ganhei a minha vida de volta pra que? Continuar do mesmo jeito? Algo tinha que mudar e eu sabia disto. Mas isto não aconteceu do dia para a noite. Os meus filhos cresceram... e as oportunidades foram surgindo.

+Amigas : Quais seus próximos projetos, aventuras?

Mônica : Em agosto vou para Madagascar, correr 250 km. Estou totalmente focada e me dedicando ao máximo. Sei que não será fácil. Mas o mais difícil já passou.

+Amigas : Você deve ter uma despesa grande participando dessas ultramaratonas. Você mencionou que na de Badwater, você contou com uma equipe de 6 pessoas. Essa infraestutura não deve ser barata. Você tem algum patrocínio?

Mônica : Até hoje eu sempre paguei com recursos próprios todas as minhas despesas. Mas não é fácil, poderia participar de mais provas, mas não tenho dinheiro para isto. Eu tenho uma maneira diferente de ver isto. Eu não corro pensando em ganhar a prova, em competir com alguém, pegar esta ou aquela colocação.
Tenho plena consciência das minhas limitações e das minhas dificuldades e do que tenho que superar para concluir uma prova. Tenho sérias restrições quanto à alimentação devido às várias cirurgias que fiz no intestino e sou diabética. Não gosto de correr pressionada visando resultados. Eu já me cobro muito por isto. Caso contrário, vai virar obrigação e isto eu não quero.

+Amigas : Você gostaria de deixar uma mensagem para outras mulheres que se inspiraram com a sua história?

Mônica : A minha mensagem é que elas nunca fiquem em segundo plano na vida de ninguém. Se façam presentes como mãe, dona de casa, profissional e esposa e que a suas opiniões sejam respeitadas. Porque toda mulher merece ser FELIZ!!!

As portas estão abertas para um eventual patrocinador desde que ele compactue com a mesma linha de pensamento, assim poderia participar de mais provas durante o ano!
Eu quero ser feliz!!!

Contato por e-mail: monica.otero@rocketmail.com ou através do site: www.monicaotero.com.br


SOBRE AS AUTORAS


Gostaria de ser avisada quando novos textos forem publicados?
Clique aqui e preencha o formulário.








SOBRE ELAS | FALE COM ELAS | ANUNCIE | ENVIE SUA HISTÓRIA | POLÍTICA DE SERVIÇOS

Copyright © Projeto Mais Amigas - Todos os Direitos Reservados

Siga-nos no Facebook Siga-nos no Instagram Siga-nos no Pinterest Siga-nos no Twitter